sábado, 4 de janeiro de 2014

Zahir

Zahir: em árabe: algo ou alguém que uma vez tocado ou visto jamais é esquecido. Situação que ocupa o pensamento e pode levar a loucura.

 Em uma pequena cidade do litoral sul-coreano onde o mar banhava grande parte da região, amigos de infância se reuniam nas rochas laterais da praia. Aquela área era de acesso proibido para banhistas ou qualquer pessoa, mas eles não se importavam - não que eles fossem do tipo rebeldes, longe disso. -, era dia de comemoração para eles, então, por quê não quebrar uma regrinha?
  - Gente eu preciso fazer um pequeno discurso. - Sehyuk, o líder do grupo, pronunciou com a voz meio alterada por conta do álcool. - Nós nos reunimos aqui para comemorar a entrada do nosso amigo, Dongsung, na Faculdade de Artes de Seoul. - Gritos de comemoração foram emitidos ali, Hyosang e Sangdo davam tapinhas no ombro de Dongsung e leves empurrões lhe parabenizando pela grande conquista, Hansol gargalhava batendo palmas enquanto assistia Sehyuk tentando ter a atenção de volta. - Calem a boca! - Gritou bruscamente deixando um silêncio constrangedor onde só podia ouviu as ondas se quebrando nas grandes rochas. - Voltando; Eu só queria dizer que eu tenho orgulho de você, eu sempre botei fé no seu talento e sempre acreditei que você iria bem longe com suas pinturas... suas maravilhosa pinturas. Eu sempre vou te apoiar, amigo. - O líder terminou seu mini-discurso, Dongsung por sua vez andou em passos apressados até o amigo e o abraçou. - Eu sei que eu nunca te falei isso, mas eu te amo. - Sehyuk completou.
 - Não é só você que ama ele. - Sangdo gritou com uma falsa raiva roubando Dogsung dos braços de Sehyuk.
 - Todos nós amamos o Dongsung, melhor assim? - Hyosang puxou todos para um abraço em grupo.
 - Uma pena você ter que ir pra cidade grande... - Hansol disse triste quando o abraço foi desfeito.
 - Mas nós podemos ir vê-lo lá! - Hyosang dizia com uma certa alegria na tentativa de confortar o amigo. Mas Hyosang sabia que as chances de se verem novamente não era tão grande.

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 Ficaram tagarelando por horas. Hansol se mantinha um pouco afastado como de costume, aquele era seu jeito. Embora fosse bastante apegado aos seus colegas em certos momentos preferia ficar quieto, isolado em um canto qualquer. Hansol era nefelibata.
 Ironicamente, o garoto se encontrava no mundo da lua enquanto encarava o luar refletido nas águas agitadas do mar. Por trás das finas grades que separavam o mar das rochas uma estranha movimentação na água chamou a atenção de Hansol. Caminhou até a proteção, porém aquele tipo de aproximação não era o suficiente pra entender o que acontecia ali. Saiu da área protegida pelas grades e desceu algumas das rochas e o máximo que conseguiu ver foi algo que se parecia com um rabo de peixe. 
 Quando Hansol foi se aproximar um pouco mais do mar por um deslise acabou pisando falso e escorregou rochas abaixo. 
 Hansol não sabia nadar e o pânico só piorava a situação do pobre garoto.
 No meio daquela escuridão aquática a unica coisa que Hansol enxergava era uma luz não muito longe, acreditou que fosse Deus indo buscá-lo para que fosse para o outro lado. Aquela luz tinha uma espécie de força gravitacional que puxou o garoto para perto. Hansol não podia acreditar no que via, aquilo lhe causou um pânico maior que se afogar, aquela luz era na verdade era o rabo de peixe de um tritão, uma calda que brilhava com uma lua cheia refletida no horizonte marítimo, até a pele albina do tritão brilhava com uma lampada de Natal, seus cabelos castanhos caiam sobre o olho direito, suas unhas prateadas como sua calda brilhavam como tal e seus dentes branquíssimos estavam alinhado em estranho sorriso.
 Foram segundos de silêncio, um encarando o outro, até que o tritão soltou sua linda voz em um canto perfeito e bizarro, era estranha a forma que sua voz ficava em baixo da água mas era maravilhosa, encantadora, Hansol se sentia enfeitiçado e de fato estava.
 Aquele timbre, aquela melodia, a forma como seus lábios se mexiam, aqueles sons emitidos, apenas sons, nenhum palavra era dita mas também não era necessário. Era tudo doce como açúcar de confeiteiro.
 O ser nadava de uma forma dançante em volta do corpo mole do loiro, algumas vezes se auto-permitia a cantar no ouvido do jovem. Hansol acariciou aquela calda viscosa e brilhante e sentiu seu corpo inteiro estremecer. Encarou novamente o ser a sua frente, tão lindo, tão angelical, tão surreal. Aqueles olhos miúdos, o seu rosto escupido em carrará, as maçãs altas, os lábios pequenos e um tanto cheios e o nariz delicado como de uma boneca. O modelo de perfeição.
 Por azar ou sorte, seu corpo foi retirado do mar por algum de seus amigos. Em imediato o mar ficou escuro. Em imediato o destino do Hansol ficou escuro.
 Frustado e confuso, o garoto olhou ao redor tentando entender o que tinha acontecido. Seria aquilo um sonho? Percebeu que não era assim que viu o líder, Sehyuk, sem os casacos de frios e o corpo completamente molhado.
 Estava tão apavorado que nem se lembrava como respirava, ofegava e tossia com a mão sobre o peito. Seu peito inteiro doía e o vento gelado batendo em seu corpo molhado parecia cortar como laminas e ardia como fogo.
 - Você está bem? Sente frio? Alguma dor? Consegue respirar direito? - Hyosang perguntava desesperado atropelando as palavras.
 Dongsung tirou os casacos molhados de Hansol e trocou por seu blazer pesado. Hyosang deu sua jaqueta e Dong colocou nos ombros do garoto. Sangdo devolveu os casacos de Sehyuk e emprestou seu sobretudo negro para o líder se esquentar, o mesmo se agachou na frente do amigo e deu um longo suspiro.
 - Hansol, responda, você esta bem? Se machucou quando caiu? - O líder perguntava com calma.
 - E-Eu estou bem. - Não, Hansol não estava bem, havia uma confusão em sua mente, o frio era gritante e seus lábios estavam trêmulos e arroxeados. Mas ele não queria que seus amigos ficassem muito preocupados. Aquele canto tocava em sua mente fazendo sua cabeça e estômago girarem em agitação. - Acho que bebi tanto que perdi o equilíbrio.
 - Acho melhor te levarmos para casa, você esta tremendo de frio. - Sangdo falou retirando as chaves da picape do bolso da calça jeans.

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 O único som que se ouvia dentro do carro era das respirações dos jovens. Ninguém tinha nada a dizer, nem mesmo Sangdo que agora tinha os estofados do carro encharcados. Se fosse em outra situação, o moreno estaria gritando com seus colegas por estarem molhando seu carro.
 Kim Hansol não olhava para algo ou alguém, seus olhos estavam preso em um ponto específico mas ele não enxergava nada além da imagem que estava presa em sua mente. Não ouvia o silêncio do carro porquê seu cérebro obrigava a ouvir aquela canto do tritão que ficava rodando no fundo de seus pensamentos, como trilha sonora pra toda confusão que havia em seu sub-consciente. Se sentia manipulado, manipulado pelo álcool, ou pelo feitiço do tritão. Não sabia no que acreditar, havia bebido mais do que aguentava ou aquele evento bizarro realmente tinha acontecido em sua vida? Aquilo seria um sonho no qual acordaria logo e perceberia o quanto sua vida era comum e nada sobrenatural? Ou até mesmo um sonho estranho por conta do nervosismo que estava passando com a mudança de Dongsung? As perguntas talvez nem fizessem sentido, ou fizessem, Hansol estava com um nó em seu cérebro que impedia de raciocinar de forma coerente. Sua mente era dominada pela dança que a escama do ser fazia, pelo canto - um canto tão grudento que involuntariamente, Hansol, começou a canta-lo, o que chamou a atenção de seus amigos. -, fora a beleza divina daquela espécie sobrenatural.
 - Hansol, acorda cara. Estou te chamando faz tempo. - Sehyuk sacudiu os cabelos molhados do loiro chamando-lhe a atenção.
 - Hansol sempre andando nas nuvens. - Dongsung balançava a cabeça inconformado com a falta de atenção que o mais novo tinham.
 - Agora ele quer aprender a andar sobre as águas também. - Sangdo tentou descontrair aquele clima tenso por conta das auras confusas dos presentes ali. Tentativa muito bem sucedida, Hansol de primeira ficou com uma bela cara de bunda mas logo riu juntos com os amigos. Até mesmo Hyosang ria, o que era novo já que o jovem não tinha o costume de rir das piadinhas idiotas do moreno.
 - O que vocês querem? - O loiro perguntou grosseiramente encarando o líder.
 - Já chegamos na sua casa se você não percebeu. - Respondeu no mesmo nível de malcriação. Era sempre assim, um sendo grosso com o outro mas mesmo assim se amavam e não imaginavam-se longe deus parceiros.


 Virou para direita, virou para a esquerda. Encarou o teto, afundou o nariz no travesseiro e chegou a conclusão de que tinha que trocar a fronha já que esta estava cheirando a suor. Deve ter ficado aproximadamente umas duas horas tentando pegar no sono mas ele não chegava, era frustante para o garoto.
 Tudo em sua mente parecia rodar, aquele maldito canto preso em seus pensamentos. Hansol só queria dormir em paz mas aquele maldito tritão roubou seu precioso sono, assim como roubaria sua alma caso continuasse com aquela música na cabeça.
 - Merda! O que foi aquilo? - Grunhiu contra o travesseiro.

-

 Lá estavam todos reunidos pela segunda vez naquela semana, agora era em uma cafeteria do aeroporto. Dognsung partiria nesse dia.
 Se fosse um encontro normal todos ali presentes estariam rindo de alguma piada ou de algum acontecimento. Mas o silêncio reinava ali. Finalmente tinha caído a ficha de que Dongsung estava entregando sua alma para a cidade grande.
 - Então Hansol... você esta melhor? - Hyosang perguntou quebrando aquele silêncio irritante.
 - Não sei... Se eu disse algo vocês prometem não rir de mim? - Hansol estava inseguro, ele sabia o possível "bullying" que sofreria se contasse sobre o possível tritão.
 - Pode falar... - Sangdo disse calmo, aparentemente ele foi único que percebeu a insegurança do amigo.
 - Ontem... quando eu cai na água, vocês viram algum tritão?
 Os amigos se encararam confusos.
 - Um o que? - Sehyuk ergueu a sobrancelha.
 - Um tritão... eu sei que parece estranho, mas eu juro que vi um. Não é coisa da minha cabeça.
 - Você bebeu demais. - Dongsung desconversou.
 Hansol se sentiu derrotado, achou melhor parar o assunto por ali, mas sabia que o que viu na madrugada passada não era alucinação por conta do álcool.


 Deu adeus ao amigo, não sabia quando voltaria a vê-lo, ou se veria ele novamente algum dia.
 Do grupo de amigos, Hansol era o mais sensível, era o único que não aguentaria segurar as lágrimas e também o único que não cobrava de si mesmo uma postura que não poderia ter. Molhou o ombro do amigo com algumas lágrimas e então deixou partir na nova jornada de sua vida.

-

 Haviam-se passado duas ou três semanas, a mudança de comportamento de Hansol era nítida. Começou a ficar mais tempo em casa assistindo documentários suspeitos sobre sereias e tritões, o quadro do Che Guevara foi substituído e jogado em um canto para que a imagem de um tritão tomasse seu lugar. A imagem era uma pintura feita pelo dono do quarto que também havia espalhado pelas paredes desenhos de sereias e tritões.
 Sua mãe achou estranho, seu filho não tinha mais idade para ficar passando por fases que envolvessem mitologias e afins. A mudança radical de assuntos que tinha com o jovem na mesa de jantar, a forma que ele se desligava ainda mais. Tudo estranho. Onde estaria o menino que discutia política durante a ceia de Natal? Era como se sentisse uma energia estranha vinda de seu filho, ou até mesmo a falta de sua antiga energia.
 Ele decidiu que teria um aquário em seu quarto. Ela não disse nada, mas se questionou sobre os novos interesses do filho.
 - Não sei o que está acontecendo com você, mas pelo menos tirou da parede aquele comunista, socialista, ou sei lá o que esse homem era.
 - Se quiser eu penduro ele agora mesmo. - Disse com um ar de riso.
 - Não, está ótimo assim!


 - Hansol, o Hyosang chegou.
 Silêncio.
 - E ai, cara. Já começou a morar de vez aqui no quarto? - Perguntou o amigo.
 Silêncio.
 Era com esse som - ou a ausência de um - que Hansol respondia as pessoas.
 Estava sentado na cadeira do computador, mas sua atenção estava no quadro do seu mais novo ídolo. Encarava e relembrava, encarava e cantarolava, apenas encarava. Completamente surreal. Estava desligado do mundo exterior, mas completamente ligado no mundo que fora criado em sua imaginação, completamente ligado nas suas lembranças, completamente ligado na canção do tritão, a maldita canção que tanto desejava ter em mp3.
 - Maldito nefelibata. - Hyosang reclamou. - Terra chamando Hansol. - Estalou os dedos perto do rosto do amigo.
 - Ah, você já chegou? Nem ouvi...
 - Sua mãe gritou "Hansol, o Hyosang chegou", - tentou imitar a voz da senhora - mas você nem ouviu. Você só fica no mundo da lua... digo, do mar.
 - Apenas ando mais distraído que o normal. - Deu de ombros. Ou fingiu. Só não queria que seu amigo pegasse em seu pé.
 - Não irei falar nada porque sei que não vai adiantar.
 Silêncio.
 - É... enlouqueceu de vez. - Ligou o computador do amigo, tirou o amigo da cadeira e sentou na mesma. - Nossa, seu wallpaper é um tritão, por que não colocou a Pequena Sereia?
 Silêncio.
 - Você está me ignorando? - Gritou.
 - Me desculpe, me desliguei de novo. - Respondeu sem ao menos olhar para Hyosang.
 Hyosang decidiu não falar nada, por mais que achasse completamente estranha essa distração excessiva do garoto. Aderiu o silêncio, o silêncio externo, mas sua mente estava barulhenta.

-

 Do outro lado da rua se encontrava a biblioteca municipal. Enrolou um pouco, não sabia se deveria atravessar a rua. Aquele foi o único momento que se questionou o que diabos estava fazendo da sua vida, que rumo ela estaria tomando. 
 - O que você está fazendo, Hansol? - pensou. - Por que você está tomando tanto tempo da sua vida com isso?
 Respirou fundo e deu meia volta, decidiu que voltaria pra casa e pararia com essa palhaçada.
 Falhou.
 Deu dois passos e logo voltou para o caminho da biblioteca. Dessa vez atravessou a rua sem hesitar. Provavelmente não chegou a olhar se algum carro passaria no momento, apenas foi, assim como os pensamentos de "eu não deveria estar aqui" também se foram.
 Deixou de escutar seus pais, deixou de escutar seus amigos e agora deixou de se escutar. As únicas coisas que ouvia de fato eram as ondas do mar, isso nas vezes que fugia de casa na madrugada para ir a praia na esperança de encontrar o tritão.


 - Bom dia! O que procura? - Perguntou o bibliotecário. O rapaz era jovem, provavelmente teria acabado o ensino médio no ano anterior, tinha os cabelos pretos e usava óculos redondos de armação grossas e pretas.
 - Hipster... - Esse foi o pensamento de Hansol ao ver que o bibliotecário usava camisa xadrez com gravata borboleta. - E-estou procurando... - Gaguejou pela vergonha, pela primeira vez se sentiu infantil de tudo que estava acontecendo. - Você poderia me mostrar livros sobre sereias, ou sobre tritões?
 - Você quer algo infantil?
 Um tapa na cara. Hansol respirou fundo, suas bochechas tinham uma coloração rosada. Estava constrangido. Logo percebeu que esse tipo de interesse não é comum entre adultos.
 - Estou procurando algo mais mitológico ou cientifico.
 Fora levado até uma área isolada e um pouco empoeirada, realmente, adultos não gostam desses assuntos.